Qual o futuro do conteúdo no esporte?

Nos grandes clubes brasileiros de futebol, não é segredo que uma parte enorme de sua receita vem dos contratos milionários com emissoras de televisão. Há tempos, os maiores campeonatos europeus rodam de emissora em emissora no Brasil, mas sempre no formato televisivo; seja canal aberto ou fechado. Até quando isso vai durar? Vamos aos fatos:

Todos os gigantes brasileiros produzem conteúdo constante para suas respectivas “TVs”, que na verdade aparecem em seus canais de YouTube. Isso já faz algum tempo, e clubes como Flamengo e Palmeiras já batem perto ou mais de um milhão de inscritos. Na Europa, alguns gigantes do esporte fizeram até o caminho contrário: o Manchester United chegou ao YouTube somente em 2018. Antes disso, o clube produzia conteúdo para sua TV própria, já gerando muita relevância.

Apesar da grande quantidade de acessos, essas plataformas são limitadas em termos de retorno financeiro direto: alguns clubes inserem “naming rights” com patrocinadores (prática muito comum em estádios e campeonatos), e a maioria tem alguma renda por meio dos anúncios que o próprio YouTube seleciona e oferece pré e durante o vídeo.

Por causa desse baixo controle de decisões, esses mesmos clubes já lançam plataformas próprias, cada vez mais completas, de vídeos sob demanda e streaming de eventos do clube. Geralmente, os conteúdos são exclusivos: bastidores, entrevistas, especiais. Tudo que não cabe nas transmissões de canais esportivos, mas que o torcedor mais fanático viraria noites assistindo.

A receita para esse sucesso é baseada em três pilares: um conteúdo raro, de qualidade e relevante. De fato, os vídeos são exclusivos, e vendidos como tal, recebem investimento financeiro em sua produção e dão ao torcedor algo que, até pouco tempo atrás, parecia impossível: estar praticamente dentro do clube, mesmo sem sair de casa.

As emissoras de televisão, hoje dominantes no mercado, também notaram o movimento nesse sentido e, cada vez mais, lançam suas próprias versões de “Netflix própria”. O Premiere Play é o serviço da Globosat, detentora dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. O ESPN Plus destaca as transmissões de ligas estrangeiras, marca do canal. E por aí vai.

A maioria desses serviços ainda é exclusivo para quem assina também o pacote de televisão correspondente, como uma forma de estender a assinatura para outros dispositivos. Uma estratégia inteligente para manter o domínio do mercado.

Há também algumas situações curiosas. Recentemente, o Esporte Interativo, canal que detém os direitos brasileiros de transmissão do maior campeonato de clubes do mundo (UEFA Champions League), resolveu encerrar suas atividades nos dois canais de televisão que tinham. Hoje, a maioria dos jogos da UCL é transmitida pela página do EI no Facebook, ao vivo, com interações ao vivo dos espectadores. Além, é claro, do EI Plus, correspondente às plataformas dos canais citados.

É normal presumir que isso só ocorre com o futebol, por ser o esporte mais popular do país. Olhando para fora, no entanto, notamos que NFL, NBA, MLB e NHL, as quatro maiores ligas esportivas estadunidenses, já oferecem serviços de streaming para os fãs de futebol americano, basquete, beisebol e hóquei. Os pacotes são dissociados de qualquer assinatura de canal televisivo, inclusive sendo concorrentes com as gigantes emissoras.

O desenvolvimento da tecnologia já é tal que se tornou acessível para qualquer um com uma câmera e alguém que edite vídeos. Olhando para frente, o que se espera é um universo imenso de plataformas de clubes, em vários esportes, mesmo de menor expressão. Não importa o tamanho da base de fãs, desde que eles sejam fiéis o suficiente para acompanharem o clube e investirem no serviço, que está cada vez mais acessível para os produtores.

Você duvida? No início de 2018, a Federação Catarinense de Futebol fechou um contrato com a Samba Tech. Os clubes catarinenses ouviram da emissora que detém os direitos que eles iam transmitir apenas os jogos de quarta e domingo. O estadual está longe de ser o mais badalado no país, mas conta com torcidas expressivas o suficiente para fazer valer o FC Play, serviço de streaming dos jogos, comprados em um pacote, do início do segundo turno à final.

E isso tudo está acontecendo em 2018! Imagine quando o streaming realmente tiver dado fim ao reinado da televisão, disputando em igualdade gigantes fatias do mercado de entretenimento.

Mas de onde vem essa certeza?

O motivo do sucesso

O streaming e o VOD já podem ser entendidos como uma nova era de consumo de conteúdo pelo ser humano. Assim como a televisão superou o rádio, o uso da internet para consumo de conteúdo tende a atropelar a televisão, por motivos óbvios:

1- Você assiste o que quiser

Conteúdos estão cada vez mais pulverizados em nichos de consumidores extremamente específicos. Se, antes, você tinha que escolher entre alguns canais de rádio ou TV, hoje, qualquer pessoa pode produzir conteúdo com seu conhecimento próprio.

Esse é um mercado muito recente e de relação ganha-ganha. Os produtores de conteúdo podem ganhar um dinheiro extra vendendo seu conhecimento, enquanto os consumidores conseguem um conteúdo que antes só era disponível offline, ou seja, presencial.

2- Você assiste quando quiser

Com exceção de conteúdos ao vivo, não existe mais ter que esperar para seu programa passar. Você não tem que esperar até tarde da noite para assistir um programa, ou pedir pra sua tia gravar aquele filme que vai passar pela tarde, quando você estará fora de casa.

Agora, você decide quando quer assistir seu conteúdo favorito e adapta isso à sua rotina. Há alguns anos, isso era impensável. O normal era ficar na mão das emissoras, que passam o que querem, quando querem. Bom para o consumidor, que está cada vez mais perto da sua paixão.

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3- Você só paga pelo que quiser

O bolso do consumidor também agradece pelas novas tendências. Muitos consumidores assinam pacotes imensos de televisão quando, na verdade, gostariam de assistir a uma quantidade muito menor de canais. Com o desenvolvimento do streaming, cada vez mais é possível pagar separadamente pelo que se consome, escolhendo exatamente aquilo que te atrai mais.

Assim, poderemos montar nosso “pacote personalizado” de conteúdo, como se escolhêssemos os canais de televisão pelos quais queremos pagar. Disruptivo, não?

4- Avanço exponencial da tecnologia

A transmissão da televisão é cada vez mais veloz. Antigamente, era de comum conhecimento que o rádio se adiantava em consideráveis segundos, mas essa distância está caindo. Acontece que a televisão a cores completa mais de seis décadas de existência, enquanto a Internet popular tem menos de 20 anos.

Hoje, o streaming ainda é mais lento e com bitrate variável, principalmente com os serviços brasileiros, muito imaturos se comparados aos europeus, por exemplo. Mas o futuro breve promete: se a tecnologia se expande exponencialmente, não chega nem a ser ousado dizer que em poucos anos, transmissões ao vivo por televisão e internet terão delay imperceptível a olho nu.

Com tudo isso, você ainda acha que não precisa pensar em vídeos sob demanda em seu negócio? E se fosse possível usar seu conhecimento de especialista em qualquer área para criar seu próprio canal de conteúdo? Se você, agora, acredita que consegue produzir um conteúdo de valor, confira também os outros conteúdos do nosso blog e este material sobre como criar seu Netflix de nicho.

Por: Bernardo Bastos

Responsável pelos Novos Negócios na Samba, é futuro engenheiro e multidisciplinar. Apaixonado por novas tecnologias, vendas e marketing, além, claro, de futebol - tanto o inglês quanto o americano. Escritor nas horas vagas e entusiasta das cervejas artesanais, busca novas formas de exercitar a criatividade, no pessoal e no profissional. Nada melhor que amigos reunidos, comida gordurosa e muita risada!

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